Faça ouvir a sua voz
Há dois anos, ela nem sequer esperava ser eleita. Hoje, desempenha as funções de Delegada de Igualdade e Vice-Presidente da delegação da sua empresa. Thereza Fontana, antiga advogada no Brasil, encontrou muito mais do que uma nova carreira no Luxemburgo — descobriu uma cultura de trabalho completamente diferente, que agora defende apaixonadamente enquanto representante da ALEBA.
A jornada de Thereza rumo ao Grão-Ducado começou com uma simples visita que se transformou em amor à primeira vista. Enquanto exercia advocacia no seu país natal, uma antiga colega e amiga mudou-se para o Luxemburgo. Ao visitá-la, Thereza ficou imediatamente cativada pelo país. Em setembro de 2022, fez as malas, garantiu um cargo como jurista interna (in-house lawyer) numa empresa local de serviços e começou a sua nova vida. O que mais a surpreendeu ao chegar foi a profunda mudança de mentalidade no local de trabalho em comparação com as suas experiências anteriores. "No nosso país, absorvemos muito da cultura de trabalho dos Estados Unidos, que não é propriamente um excelente modelo a seguir", nota, explicando como muitas vezes se espera que os trabalhadores trabalhem até à exaustão. "Aqui, há um desejo muito maior de equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, de impor limites e de cuidar da saúde mental. Ninguém deveria estar numa situação horrível apenas porque precisa de dinheiro para sobreviver."
A sua incursão na representação sindical foi totalmente inesperada. Estando na empresa há apenas um ano e meio, um colega abordou-a, procurando especificamente trazer mais mulheres para a delegação. "Aceitei participar, mas não achava de todo que seria eleita, por isso foi uma surpresa", admite com um sorriso. Agora, representando cerca de 100 trabalhadores, Thereza encontra uma profunda satisfação no seu duplo papel. Enquanto Delegada de Igualdade, traz um olhar crítico sobre as dinâmicas do escritório, garantindo a manutenção da equidade. Mas o seu objetivo mais amplo é, simplesmente, ser um ponto de contacto fiável para os seus colegas.
"Quando entra alguém novo, apresento-me e digo: 'Faço parte da delegação de pessoal, este é o nosso papel, se precisares de alguma coisa, entra em contacto'. É apenas manter esse contacto no dia a dia."
Thereza é uma fervorosa defensora dos limites, praticando o que defende no que diz respeito ao direito à desconexão. "Quando estou no trabalho, estou no trabalho. E quando estou em casa, estou em casa, por isso não verifico o telemóvel nem os e-mails", explica. Encoraja os colegas a fazerem valer o seu direito a pausas, recordando o conselho de um antigo diretor: "Não é por não fumares que não tens direito a uma pausa. Se estiveres bloqueado nalguma coisa, ou se tiveste uma reunião frustrante, vai 15 minutos lá fora. Caminha um pouco, vai buscar um café. O trabalho vai lá estar quando voltares."
Para Thereza, ser delegada da ALEBA significa ser mediadora. "É uma posição interessante porque normalmente estamos entre conflitos, ou situações delicadas entre os trabalhadores e a direção", observa. "Entrar de forma demasiado agressiva encerra qualquer tipo de conversa. A função mais importante é ouvir, transmitir a mensagem e abrir o diálogo." Thereza descobriu que a ALEBA fornece exatamente o apoio necessário para este trabalho delicado. Quando a sua empresa passou por uma fusão, juntando duas delegações de pessoal diferentes, a ALEBA prestou um apoio jurídico claro e prático sobre como lidar com a transição. No entanto, o seu papel também exige confrontar realidades desconfortáveis, particularmente no que diz respeito à igualdade de género. Embora o Luxemburgo ofereça fortes proteções laborais, Thereza reconhece que o panorama profissional ainda tem um longo caminho a percorrer. "Ainda existe um fosso, maioritariamente nos cargos de gestão, impactando nos salários e nos títulos", diz. "Mas, mais do que isso, há uma diferença no tratamento. Olhamos para uma sala e temos quatro mulheres para seis homens, e as pessoas acham que está tudo bem, que isso e igualdade. Mas é muito mais profundo. Quando apresentamos uma opinião ou questionamos uma decisão, de repente somos muito ‘opinionada’ ou temos uma 'personalidade muito forte'. São os comentarios que se ouvem." Thereza continua empenhada em fazer avançar estas conversas, sabendo que a mudança exige persistência.
Ao refletir sobre o poder da ação coletiva, encoraja mais trabalhadores a envolverem-se. Vinda do Brasil, onde a vasta geografia conduziu a sindicatos altamente fragmentados e por vezes enfraquecidos, Thereza valoriza o impacto concentrado que um sindicato pode ter no Luxemburgo. "Quanto mais membros, mais a informação se espalha, e a conversa extravasa a empresa", insta. "É muito mais fácil fazer algo em equipa do que fazê-lo sozinho. É este o poder que a ALEBA pode ter se estivermos juntos."
Quando lhe perguntam por que razão os outros deveriam considerar tornar-se delegados de pessoal, Thereza é clara: trata-se de abrir o diálogo e ser a ponte que impede a escalada dos conflitos. A sua mensagem tanto para os atuais como para os futuros membros da ALEBA é simples mas poderosa: "Liguem-se uns aos outros, partilhem as vossas experiências e lutem pelo que acham que está certo.” Para Thereza, a essência deste poder coletivo resume-se a um único princípio que definiu toda a sua experiência com o sindicato. Se tivesse de descrever a ALEBA numa só palavra, a sua escolha seria imediata: "Apoio."
Porque os seus colegas contam consigo